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02/06/2010  
  Precisa-se já: novas estratégias de financiamento para o sistema de aposentadoria  
  Olivia S. Mitchell
Reproduced from 'Knowledge at Wharton' - Seguros y Pensiones

 

Na esteira da crise financeira global, os sistemas de aposentadoria em todo o mundo, reféns de inúmeros problemas, enfrentam agora novos desafios que podem resultar na redução drástica dos rendimentos dos aposentados. Além disso, os trabalhadores mais jovens poderão ter de trabalhar muito mais tempo, observa Olivia S. Mitchell, professora de gestão de seguros e de risco da Wharton.

Em recente estudo intitulado "Implicações da crise financeira para a seguridade da aposentadoria a longo prazo" ["Implications of the Financial Crisis for Long Run Retirement Security,"], Mitchell, que é diretora do Conselho de Pesquisas de Pensões da Wharton, descreve uma série de novos riscos para a estabilidade do sistema de aposentadoria, a começar pela poupança individual inadequada até a incerteza global em escala mais ampla vinda à tona com o advento do colapso financeiro. Gerações atuais e futuras não poderão mais depender de um modelo "antiquado" de aposentadoria em que o trabalhador poupa durante os anos de serviço ativo. Elas precisam começar a pensar em novas estratégias de financiamento da velhice, diz ela. "É irônico e triste saber que no momento em que estamos às portas do envelhecimento global e da aposentadoria da geração do baby boom (nascida no pós- guerra), o sistema que esperávamos que fosse nos amparar pareça tão frágil."

Mitchell é também diretora associada do Financial Literacy Center [Centro de Alfabetização Financeira], instituição de pesquisas da Wharton em parceria com o Dartmouth College e a Rand Corp. Criado em 2009 e mantido pela Administração da Seguridade Social dos EUA, o centro investiga as barreiras à alfabetização financeira e está recolhendo dados sobre programas que funcionam. (Ver a entrevista sobre alfabetização financeira feita pelo Knowledge@Wharton com Annamaria Lusardi, que chefiará o novo Centro, e Michelle Greene, secretária-assistente interina de educação financeira do Departamento do Tesouro dos EUA: "Lidando com o analfabetismo financeiro e com os custos que ele acarreta" [Tackling Financial Illiteracy -- and the Costs that Go With It]).

Diversas agências governamentais e organizações sem fins lucrativos estão trabalhando na questão do analfabetismo financeiro com funcionários da Seguridade Social, observa Mitchell. "A Seguridade Social acredita que deva estar à frente desse processo pelo fato de ser a maior organização governamental dedicada ao problema do envelhecimento e da aposentadoria."

O fim da aposentadoria precoce

Em seu estudo, o primeiro nível de risco que Mitchell identifica refere-se às pessoas que se viram obrigadas a financiar uma parcela cada vez maior de sua aposentadoria na medida em que a dependência da pensão corporativa vai se mostrando cada vez mais frágil. Ela diz que há uma falta alarmante de entendimento a respeito de conceitos econômicos importantes - como o conceito de inflação e o valor dos juros compostos sobre a poupança destinada à aposentadoria - nos EUA e no mundo todo. Economizar para a aposentadoria é particularmente difícil para as pessoas que não têm uma alfabetização financeira básica, diz ela. O estudo cita uma pesquisa segundo a qual, num universo nacional representativo de americanos na faixa dos 50 anos, apenas 18% sabiam o que era juro composto.

"O risco de inflação também me preocupa muito porque receio que tenhamos de enfrentar uma taxa de inflação muito alta nos próximos anos", diz Mitchell. A pesquisadora observa que é sempre muito difícil para as pessoas adequar seus investimentos à inflação depois que se aposentam. Um ativo útil nesse sentido, diz ela, e que poderia ser incluído nas carteiras de aposentadoria, são os Títulos do Tesouro Protegidos contra a Inflação [Treasury Inflation-Protected Securities, ou TIPS]. O principal do TIPS aumenta com a inflação e diminui com a deflação, conforme mensurada pelo Índice de Preço ao Consumidor. No vencimento do título, os investidores recebem o principal reajustado ou o montante principal original, o que for maior.

O risco da longevidade, ou a possibilidade de que os aposentados sobrevivam à suas economias, é outro problema. A pesquisa mostra que muita gente subestima suas chances de vida longa e, como consequência, deixa de economizar o suficiente para a vida toda. Mitchell assinala que alguns atuários britânicos fixam agora em 125 anos a idade de referência para os preços dos contratos de seguros. Nos EUA, a idade de referência é de 120 anos.

Uma forma de evitar o risco da longevidade consiste em adquirir uma anuidade de uma seguradora que pague benefícios ao aposentado durante toda a sua vida. Esses planos encontram resistência em virtude da relutância do aposentado em entregar seu pé-de-meia a um provedor de anuidades, e também devido à incerteza em relação à estabilidade da seguradora. A crise financeira gerou uma relutância ainda maior no que diz respeito à compra de anuidades. Na verdade, diz Mitchell, o colapso da AIG, de grande impacto sobre o público, "lançou uma sombra" sobre a indústria de seguros, embora os problemas da empresa não se devam ao negócio tradicional dessa indústria. Diversas seguradoras receberam alívio dos órgãos reguladores, o que lhes permitiu operar com as reservas esgotadas. Outras pensam em pedir ajuda federal, atitude que Mitchell classifica em seu estudo como "evento que inspira preocupação".

Para a professora, uma forma de se proteger contra poupanças incompatíveis com a aposentadoria consiste em trabalhar até depois dos 70 anos. A pesquisa mostra que se as pessoas puderem adiar a aposentadoria em dois ou cinco anos, conseguirão com isso melhorar significativamente sua seguridade financeira quando se aposentarem. Postergar a aposentadoria não só permite aos trabalhadores economizar e investir mais durante os anos a mais de emprego, como também lhes permite adiar o dia em que a poupança acumulada será sacada. "Para as gerações mais jovens", diz ela, "75 anos seria uma boa meta de aposentadoria precoce, e mais tarde ainda se possível". No cenário econômico atual, em que relativamente pouca gente exerce atividades que exigem esforço físico, Mitchell diz que o trabalhador pode continuar no emprego ainda por muito tempo. De acordo com a professora, vários estudos mostram que trabalhar por mais tempo melhora a saúde na velhice.

Os empregadores, porém, vão querer contratar quem se mantiver atualizado, portanto a aprendizagem e o treinamento contínuo devem ser um processo que perdure por toda a vida. "A aprendizagem não termina depois que o indivíduo se forma. É preciso se reciclar todos os anos, e não para aos 50 ou 60 anos", diz Mitchell. "Temos de repensar o processo de investimento no capital humano e a aquisição de conhecimentos, e continuar a aprender pela vida afora."

Risco em todos os níveis

Outro nível de risco analisado pelo estudo diz respeito às instituições que supervisionam as pensões públicas e privadas. "A crise financeira colocou em destaque alguns problemas muito arraigados no tocante às pensões corporativas", diz Mitchell, que cita a GM, com um passivo de pensões a descoberto de US$ 20 bilhões, como exemplo da magnitude dos problemas enfrentados por muitos planos corporativos tradicionais de benefício definido. No estudo, a professora nota que vários desses planos investiram pesadamente em ações e foram afetados pelas desvalorizações ocasionadas pela desaceleração da economia. No setor público, estados e municípios dispõem, em média, de cerca de metade do dinheiro necessário ao cumprimento de suas obrigações com as pensões, informa o estudo. Enquanto isso, as resseguradoras do governo criadas para proteger as pensões, como a Pension Benefit Guaranty Corporation (PBGC), nos EUA, e a Pension Protection Fund, no Reino Unido, também estão com problemas financeiros. "Embora a PBGC tenha dinheiro suficiente para cobrir as aposentadorias atuais, não é solvente a longo prazo, e poderá precisar de um plano de socorro financeiro semelhante ao TARP [Programa de alívio para ativos problemáticos]", diz Mitchell. "As pensões, como instituição, estão em situação difícil em muitos países."

Os planos individuais conhecidos como 401(k) [em que o trabalhador investe parte do que ganha numa conta especial] ajudarão a suprir o déficit financeiro de muita gente, diz Mitchell, mas não de todos, uma vez que essas economias foram também duramente atingidas pelo colapso do mercado acionário. Ao mesmo tempo, diz ela, fatores comportamentais - como a tendência de investir insistentemente em ações do empregador e de se recusar a recorrer a anuidades - continuam a limitar a possibilidade dos planos de contribuição definida de proporcionar a seguridade para a aposentadoria. "Os planos do tipo 401(k) são parte da resposta, mas não são a resposta toda."

A crise financeira e a queda acentuada dos preços das ações também desafiam o pensamento tradicional sobre a constituição de carteiras que exigem um risco maior por parte dos trabalhadores mais jovens que poderiam se beneficiar de ganhos mais generosos no mercado acionário, mas que ainda têm tempo para se recuperar do colapso econômico. Muitas empresas com planos 401(k) incluíram automaticamente o trabalhador na data de aposentadoria fixada pela companhia. Os fundos baseados nesse modelo de "ciclo de vida" têm, em geral, maior exposição ao mercado acionário no caso dos funcionários mais jovens, porém os gestores desses fundos reequilibram suas carteiras com investimentos mais seguros como obrigações, à medida que o momento de se aposentar se aproxima. "Permanece o fato, porém, de que qualquer carteira repleta de ações no ano passado teve um péssimo desempenho, o que desafia a estratégia de autoinclusão na data-alvo de vencimento futuro dos fundos", diz Mitchell.

A existência de problemas em âmbito nacional também é uma ameaça para a renda do aposentado, diz Mitchell. Ao decidir quanto poupar e quando se aposentar, é fundamental que se tenha alguma ideia sobre impostos futuros, inflação e custos com saúde, escreve Mitchell. "No entanto, simplesmente não há bons prognósticos." Além disso, os programas de aposentadoria do governo, como a Seguridade Social nos EUA, estão ruindo sob o peso das populações cada dia mais velhas combinado com os déficits de receitas e a demanda cada vez maior dos trabalhadores desempregados. Mitchell diz que devido à recessão severa, mais gente desempregada decidiu se aposentar ou procurar os benefícios da Seguridade Social. Por causa disso, o sistema terá menos receita do que montante a ser pago este ano - um limiar que a agência não esperava ultrapassar até 2016.

Mitchell ressalta ainda que o Medicaid, programa de saúde do governo para os pobres, está diante de novas pressões em razão do clima econômico, e também em decorrência de novas cláusulas previstas na recente legislação de reforma da saúde que torna imperativa a cobertura de saúde de longo prazo. A retomada da economia poderia reverter essa tendência durante algum tempo, diz ela, "mas o problema é que estamos no fio da navalha".

Além do risco em âmbito nacional, a crise financeira mostrou que a economia global também não é necessariamente um porto seguro para o investimento. "Nos velhos tempos, aprendíamos que tínhamos de diversificar nossas carteiras globalmente e colher os benefícios da diversificação geográfica", diz Mitchell. "Agora, nós nos demos conta, por causa da crise financeira, de que a maré sobe e afunda todos os barcos ao mesmo tempo. Simplesmente não há um benefício significativo da diversificação global conforme se acreditava no passado."

Fazendo as contas

Um requisito importante para a seguridade da aposentadoria futura consiste em melhorar a educação financeira, diz Mitchell. "Se tivesse de fazer tudo de novo, começaria educando as crianças desde cedo." Sua pesquisa mostra que nos estados onde os estudantes do ensino médio tiveram aulas de finanças obrigatórias, esses alunos chegaram à idade adulta com mais conhecimento e mais know-how para lidar com decisões financeiras fundamentais - como, por exemplo, o planejamento da aposentadoria. Esses programas são mais eficazes quando os distritos escolares canalizam dinheiro para dar suporte à instrução. Não basta simplesmente obrigar que se ensinem finanças nas escolas. "É preciso investir algo mais nisso." Mitchell acrescenta que outra preocupação sua diz respeito aos trabalhadores de meia idade que não têm conhecimento básico de matemática e de princípios de finanças, gente mais velha que pode estar cada vez mais vulnerável a golpes.

A autora reconhece que "sua mensagem é objetiva e, receio, não muito popular". Ela diz que a crise financeira deixou claro que os sistemas de aposentadoria do mundo todo precisam passar por uma revisão profunda. "A economia do século 21 requer uma perspectiva inteiramente nova sobre a gestão de risco da aposentadoria", diz. "Temos de erguer uma nova estrutura com parcerias públicas e privadas para educar melhor as pessoas a respeito dos riscos que enfrentam. Ajudá-las a trabalhar mais tempo, criar e forjar novas instituições financeiras e novos contratos, aprendendo a regular produtos e mercados em sintonia com um mundo de gente mais velha."