OPINIÕES e POSICIONAMENTOS

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Brasil repetirá trajetória de emergentes quando alcançar o grau de investimento

junho/2007

Assim como ocorreu no México e na Rússia, entre outros países,
as taxas dos títulos públicos vão despencar,
obrigando os investidores institucionais a buscar opções mais rentáveis

“Eu vejo o futuro repetindo o passado”. O verso de Cazuza, na canção “O Tempo Não Pára”, define à perfeição, para Carlos Roberto Scretas, presidente da Schroder Brasil, o que vai ocorrer com a economia brasileira tão logo o País alcance o tão esperado grau de investimento. Na avaliação do executivo, as taxas de juros dos títulos públicos vão despencar, repetindo assim o fenômeno ocorrido em uma série de outras nações emergentes que atingiram o mesmo patamar de risco. Em conseqüência, os investidores institucionais terão de buscar opções de aplicação mais rentáveis. “Isso aconteceu na Irlanda, na Rússia, em Portugal e no México. E vai acontecer aqui também”, afirmou Scretas um dos expositores da conferência Estratégias de Investimento para Fundos de Pensão em Cenários de Grau de Investimento e Juros Declinantes, promovida em 29 de junho, em São Paulo, pela Associação dos Fundos de Pensão de Empresas Privadas (APEP).

Quanto os juros vão cair? Com base na palestra de Luiz Felipe Jacques da Motta, da Towers, Perrin Forster & Crosby, é razoável prever um declínio superior a 50%. Na Rússia, exemplificou, as taxas reais passaram de 7,5% ao ano na virada do século, quando o País conquistou o grau de investimento, para 2,5% no presente, e chegaram a ser negativas ao longo desse período. “No México foi a mesma história. De 1995 até 2006, os juros nominais caíram de 50% para 7% ao ano, enquanto as taxas reais involuíram de 7% para 3%”, observou Motta.

Os índices no Brasil ainda são bem diversos, mas não há a menor dúvida de que a tendência das taxas de juros dos títulos públicos é cadente, e não deve se alterar. Da última reunião do Conselho de Política Monetária em 2005 até a mais recente, em 6 de junho, a taxa Selic foi reduzida de 17,26% para 12% ao ano, impondo um desafio para os investidores institucionais. “A realocação de ativos já é uma necessidade. Os fundos de pensão que estão reaplicando em Notas do Tesouro Nacional, as NTNs, chegam a obter taxas inferiores a 6% ao ano, remuneração incompatível com as suas metas atuariais”, alertou Marcelo Rabbat, da Risk Office, que proferiu a palestra de abertura da conferência da APEP.

O dado curioso é que, apesar da rentabilidade declinante da renda fixa e da forte valorização das ações, a composição das carteiras dos fundos de pensão brasileiros pouco ou nada mudou nos últimos anos. Segundo Motta, da Towers, Perrin Forster & Crosby, entre dezembro de 2005 e igual período do ano passado, a fatia das ações passou de 14,8% para 16,7%, ao passo que as aplicações de renda fixa apresentaram uma ligeira queda, de 82,9% para 79,5%. “Essas pequenas mudanças, vale destacar, podem significar apenas a valorização de uma parte da carteira e a perda de rentabilidade de outra, e não uma mudança de política de investimento”, observou o consultor. “Houve um excesso de conservadorismo por parte dos fundos de pensão, que não propiciaram aos seus participantes os ganhos viabilizados pela forte alta da bolsa de valores.”

Se é líquido e certo que as políticas de investimento sofrerão alterações significativas, algumas questões surgem no horizonte. O mercado acionário nacional comporta um maior volume de aplicações por parte de gigantes como os investidores institucionais? Há oferta suficiente de outros ativos no País? Scretas, da Schroder, considera que as ações brasileiras ainda não estão caras. “Os papéis oferecem hoje um desconto de 20% em relação à média dos demais países emergentes”, assinalou. “O México estava num patamar semelhante até 2000, quando obteve o grau de investimento. Aí, as suas ações passaram a ser cotadas 25% acima do padrão emergente. Isso pode acontecer aqui, sim.”

Entre as demais opções de investimento, Rabbat, da Risk Office, aponta o crédito. Para ele, trata-se de um ativo subavaliado. “Na primeira balançada que a bolsa de valores der, os investidores institucionais vão começar a prestar mais atenção no crédito”, previu. Já Marcelo Giufrida, do BNP Paribas, acredita que a solução a médio e longo prazo é o sinal verde para que os investidores institucionais ampliem suas aplicações no exterior. Esse canal foi criado recentemente pela Resolução CMN 3.456/07, que abriu espaço para aplicações de day trade, alavancagem e arbitragem no estrangeiro. “Faltam ativos no Brasil, um problema que, no passado, afetou a Argentina e o Chile, por exemplo. Assim como foi feito em outros países, teremos de nos voltar para o mercado externo”, disse Giufrida.

Para Luiz Jurandir Simões de Araújo, da Mercer Human Resource Consulting, a ampliação do leque de aplicações viabilizada pela Resolução 3.456 e o cenário econômico que se delineia impõem outra “lição de casa” aos fundos de pensão. Último palestrante do evento, ele observou que os gestores dessas entidades fechadas de previdência complementar terão de analisar mais profundamente o perfil dos participantes dos planos e a as suas expectativas. “De que servem aplicações em private equity para um plano com população expressiva de idosos? Quantos participantes têm doenças crônicas? Os administradores terão de refletir cada vez mais sobre questões como essas, devido à queda expressiva dos ganhos da renda fixa, que só tende a se acentuar”, exemplificou Araújo.

No encerramento da conferência, o presidente da APEP, Paulo Tolentino, anunciou que a próxima reunião das Associadas, provavelmente em agosto, terá como convidado Ricardo Pena Pinheiro, diretor de Assuntos Econômicos da Secretaria de Previdência Complementar (SPC), órgão encarregado da normatização e fiscalização do setor. A pauta será a Resolução 3.456. “Até lá, a nova regra já terá sido plenamente assimilada pelo mercado. Será o momento ideal, portanto, para analisarmos os seus desdobramentos”, comentou Tolentino.